A Verdadeira História de Teresa Fidalgo

Hoje apresentamos a verdade por trás da lenda de Teresa Fidalgo, o misterioso fantasma da zona de Sintra que assustou Portugal e, muito inesperadamente, até todo o mundo. Ou “Teresa Fidalga”, como lhe chamam outros, numa história que alguns locais até conhecem sem nome associado. E ela pode aqui ser apresentada através de uma pequena história, pessoal mas bastante real – há já uns anos um dos nossos colegas estava a viver no México quando um amigo desse país lhe quis mostrar um pequeno vídeo exibido num programa da manhã local, e que supostamente tinha sido gravado na zona de Sintra, em Portugal Continental. A história de terror apresentada lá, que até se confunde com a própria lenda de que falamos hoje, é muito simples, pelo que podemos resumi-la assim:

 

A lenda ou história de Teresa Fidalgo

Fotografia do fantasma de Teresa Fidalgo, ou Teresa Fidalga

Três jovens andam de carro por Sintra a meio da noite e encontram uma bela jovem, com um agora muito invulgar vestido branco, na berma da estrada. Oferecem-lhe boleia, não se sabe muito bem para onde, e ela aceita-a. Apesar de muito calada, ela diz-lhes o seu nome, o mesmo nome pelo qual ficará depois conhecido este fantasma. Minutos depois, aponta-lhes para um dado lugar numa qualquer estrada e diz-lhes “Foi ali que tive um acidente [em 1983, um elemento que a lenda adiciona posteriormente]… e morri!”, transformando-se numa espécie de monstro e causando aos ocupantes do carro o que se supõe ter sido um acidente mortal (já que não se ouve qualquer movimento depois deste tomar lugar).

 

E é somente esta a lenda associada a Teresa Fidalgo, a sua copypasta ou biografia (se assim o quisermos chamar), sem tirar nem pôr uma vírgula em toda a história – ela era uma jovem que, supostamente, em 1983 morreu numa curva de uma qualquer estrada de Sintra e agora assombra os vivos que por lá passam, conduzindo-os para as suas próprias mortes no mesmo local em que ela própria um dia faleceu.

 

No programa mexicano a apresentação parcial deste vídeo, sem legendas em Espanhola e que pode ser recordado abaixo (para quem ainda não o conhecer), foi seguida por uma discussão de diversos “especialistas” na matéria, que o analisaram e, com base nas supostas “provas” que aí encontraram, o proclamaram como o registo de um acontecimento completamente real e verdadeiro, de um assombramento por parte desta entidade metafísica portuguesa. E então, esse amigo mexicano foi perguntar ao nosso colega se o que ele tinha visto na televisão – e a própria lenda – eram mesmo verdade…

 

 

É esta história de Teresa Fidalgo verdade?

De facto… estas coisas associadas a Teresa Fidalgo não eram e não são verdade, deixe-se isso completamente claro! Não parece existir qualquer referência oral ou literária a esta suposta lenda antes da criação desse vídeo, nem quaisquer provas reais da sua morte numa das estradas de Sintra, mas ela é agora contada como se de uma verdadeira lenda se tratasse, como entretanto ouvimos contar a meio de uma noite. Ainda assim, hoje sabe-se que a sequência reproduzida acima se tratava somente de uma curta metragem portuguesa, produzida pelo português David Rebordão e de título A Curva, sem qualquer fundamento real, que assentou no conceito de found footage – como o mais famoso Projeto Blair Witch anglófono – para efeitos muito significativos de publicidade e marketing.

 

Quem fez de Teresa Fidalgo?

Fotografia de Sara Cipriano, que um dia fez de Teresa Fidalgo em filme

Também nós revimos agora uma versão mais completa do vídeo acima e o que nos fascinou – e nos fez ver que era tudo mentira – é mais ou menos o que parece ter levado o nosso colega à mesmíssima ideia há anos atrás – os diálogos muito claramente ficcionais, a estapafúrdia ideia de se dar boleia a um fantasma nem se sabe bem para onde (se isso é possível, porque não raptá-lo, ou levá-lo a jantar fora?!), o final com falsas mortes, a notória falsidade do vídeo ter sido gravado e encontrado em Sintra (se assim o foi, quem o pôs online?), etc. Na verdade, a jovem que um dia fez desta personagem, de seu nome Sara Cipriano, até pode ser vista, alguns anos mais tarde, nesta segunda foto, bastando comparar as semelhanças das duas personagens femininas para que a realidade seja, muito rapidamente, posta a nu!

 

Conclusões sobre toda esta história, que é puro mito

Se até existem fenómenos fantasmagóricos e misteriosos muito famosos em Portugal, desde uma casa assombrada na Costa do Estoril até à chamada “Casa do Medo”, passando pela outrora-famosa Costureirinha, já toda esta lenda associada a Teresa Fidalgo é completamente falsa, ao ponto de nem sequer ter página na Wikipedia. Assim sendo, na altura o nosso colega ainda confrontou a produção do programa mexicano com essas falhas, mas não mostraram qualquer interesse em apresentar este outro lado da questão. Os “especialistas” do programa tinham dito que era verdade e, por isso, tinha de ser verdade, por muito mentira que o fosse…

Assim nasceu esta figura fantasmagórica, numa lenda – ou se quisermos ser mais precisos, um puro mito e pouco mais – que se acreditava originalmente ser de Sintra, e que depressa foi publicada pelo mundo fora, continuando a ser reutilizada ainda hoje como se de um fantasma verdadeiro se tratasse, em mensagens em corrente, do Instagram ou Tik Tok, que avisam coisas como “se não postares isto em mais 20 fotografias, vou dormir contigo para sempre“, “hoje completo 26 anos de morte, se não enviar isto a 20 pessoas, dormirei a seu lado para sempre, se não acredita pesquise no Google”, ou até “envie para 20 pessoas, uma garota que ignorou isso morreu 20 dias depois“. Não o façam, não reencaminhem essas coisas para ninguém, porque toda a história desta figura é completamente falsa!

A verdadeira história de Romeu e Julieta

A verdadeira história de Romeu e Julieta

A história de Romeu e Julieta é, sem qualquer dúvida, uma das mais famosas histórias de amor nos nossos dias. Ao longo dos séculos foi apresentada das mais diversas formas, e adaptada de muitas mais, sendo especialmente famosa na versão de tragédia epónima de William Shakespeare, mas… talvez pela sua grande fama, poucos parecem perguntar-se se é, ou foi, alguma vez uma história real. Será que os Capuletos e os Montéquios existiram? Será que a sua disputa teve lugar? Será que os amores dos dois jovens tiveram mesmo lugar? Ou, talvez da forma mais geral possível, até que ponto foram históricos, todos os eventos que hoje tomamos por “reais”?

A verdadeira história de Romeu e Julieta

Em busca de respostas, tentámos encontrar a mais antiga referência aos nomes de Julieta e Romeu, num contexto de amores associados à cidade italiana de Verona. Encontrámo-la na obra Historia novellamente ritrovata di due nobili amanti, também conhecida por La Giulietta, escrita por volta do ano de 1530 pelo italiano Luigi Da Porto. Dado que já não é uma obra muito conhecida, é apropriado dedicar-lhe aqui algumas linhas.

 

A Historia novellamente ritrovata di due nobili amanti, ou La Giulietta, de Luigi Da Porto

O título original italiano desta obra deixa claro que se tratava de uma história então famosa “de dois amantes nobres”. Certamente que ainda o são o nosso Romeu e Julieta, mas esse título permite compreender que a trama não foi uma invenção de Luigi Da Porto, mas uma história que já existia antes e que ele “actualizou” de alguma forma. Portanto, não foi ele o inventor da história, tal como a conhecemos, mas o seu primeiro popularizador numa determinada forma, quanto mais não seja por ter dado aqueles nomes específicos às duas personagens principais. Assim, ele refere – pela primeira vez – que essa história tomou lugar em Verona no tempo de Bartolommeo della Scala, ou seja, na primeira metade do século XIV. Isso permite localizar a trama no tempo, o que é particularmente importante porque, quando confrontados com a morte dos dois amantes, nesta versão os Capuletos e Montéquios terminam o seu alegadamente imortal feudo.

Historicamente, será que esse confronto existiu mesmo? Não lhe encontrámos qualquer vestígio histórico, fora do facto de Dante, no seu Purgatório, mencionar as duas famílias num só verso – e juntamente com outras duas – o que parece ter sugerido, erradamente e a autores futuros, um confronto entre elas. Portanto, esta história, tal como contada por Luigi Da Porto, é pura ficção… mas será que, ainda assim, foi baseada numa história real, como o seu título poderia sugerir? Para responder a isso é preciso recorrer a uma obra escrita alguns anos antes…

 

Il Novellino, de Masuccio Salernitano

Publicado em 1476, a obra de título Il Novellino, da autoria do italiano Masuccio Salernitano, contém 50 histórias que, no mínimo e pelo menos em alguns casos, parecem ter sido populares, em forma oral, no século XV. Entre elas conta-se uma, a 33ª na edição que consultámos, que conta a história de dois amantes, Mariotto e Giannozza. Ela contém muitos elementos comuns à história de Julieta e Romeu, mas notavelmente não existem duas famílias em confronto, nem as personagens morrem na forma como seria de esperar. Cumulativamente, a história não tem lugar numa só cidade, mas prolonga-se por diversos outros locais, com as desventuras e desencontros muito características de romances da época (e até da Antiguidade, e.g. o caso de Dafnis e Cloé). Na versão de hoje preserva-se, notavelmente, aquele grande desencontro da morte simulada do elemento feminino – mas, pelo caminho, caíram as diversas viagens.

Esta parece ser, no geral, a fonte essencial que Luigi Da Porto usou para a sua versão, mas… é desconhecida a fonte que, por sua vez, este autor usou, sendo provável – pelo que diz na obra – que se tenha baseado numa história oral da sua época. Teria sido ela baseada em factos verídicos? Não encontrámos qualquer vestígio real das personagens, ou mesmo da existência de um Mariotto Mignarelli que tenha sido executado (como o é a personagem masculina nesta história). Que toda a trama é ficcional, também se pode depreender por um elemento bastante óbvio – a poção mágica que causa a falsa morte de Giannozza, que naturalmente não existe, mas que era comum em tramas da época. Relembre-se, por exemplo, o caso da erva mágica que outrora engravidou Santa Iria…

 

Píramo e Tisbe?

Sabemos, portanto, que nem a história de Mariotto Mignarelli, nem a de Luigi Da Porto, tiveram efectivamente lugar. Não foram reais. Mas o que responder a quem diz que a história de Julieta e Romeu se baseou na de Píramo e Tisbe, que já cá resumimos há alguns anos? Se partilham diversos elementos significativos comuns, quando a estória da história é tida em conta, essa possível relação apresenta-se como menos paralela do que nos poderia parecer. Poderá ter influenciado o segundo autor, mas não o parece ter feito tanto para a versão original. Como tal, até poderá ter influenciado, de alguma forma, outras histórias da época, mas essa relação não é aqui tão significativa como algumas pessoas nos podem fazer crer.

 

E… a Casa de Julieta?

Esta breve visão das duas versões mais antigas da história de Romeu e Julieta sugerem que nem Julieta, nem Romeu, existiram. Mas, seguindo-se essa linha, porque existe, então e ainda hoje, uma “Casa de Julieta” em Verona, onde pode ser visto o local onde nos dizem que os dois amantes trocaram palavras de amor? Na verdade, essa identificação da alegada casa é recente – data apenas do século XX – e foi feita apenas por motivos publicitários, procurando dar à cidade um sítio que pudesse ser identificado com uma agora-tão-famosa história, tendo a famosa varanda sido adicionada a uma casa mais antiga por volta do ano de 1930.

 

Romeu e Julieta existiram?

Portanto, para concluir as linhas de hoje, importa esclarecer que não existem quaisquer provas reais de que Julieta ou Romeu, tal como os conhecemos da tragédia de William Shakespeare e de muitas outras versões subsequentes, tenham existido. É uma bela história, é claramente bastante romântica, mas parece ter-se baseado, na sua forma escrita mais antiga, numa história oral do século XV, que ainda não tinha Capuletos ou Montéquios, a cidade de Verona, ou uma morte dos heróis tal como lhes é associada hoje. Esses elementos só lhe foram associados algumas décadas mais tarde, mas sem que, aparentemente, nunca ninguém se tenha perguntado onde era possível adquirir aquela famosa poção que causava falsas mortes, nas quais nem os médicos conseguiam discernir a verdade…

Como Dom Sebastião aprendeu a jogar às cartas

Como Dom Sebastião aprenderu a jogar às cartas

Há algum tempo falámos aqui de duas lendas relativas a Camões que o tempo já fez esquecer. O mesmo manuscrito contém muitas outras histórias da época, frequentemente presas entre a ficção e a realidade, entre as quais se contam uma relativa a como um jovem Dom Sebastião aprendeu a jogar às cartas. Ela conta o seguinte, que aqui reproduzimos para evitar o seu completo esquecimento:

Como Dom Sebastião aprenderu a jogar às cartas

Dom Aleixo de Meneses, aio que foi de El-Rei Dom Sebastião (…) sendo o dito Rei ainda jovem e estando numa noite de inverno entediado, quis passar duas horas da noite a jogar algum jogo de cartas com outros jovens fidalgos da sua idade e criação. E, porque na altura o jogo mais praticado era a “primeira”, no qual os outros já eram mestres e El-Rei nem sequer tinha começado a ser discípulo, disse para o Aio: “Quero jogar a ‘primeira’ porque não a sei jogar, e vós me ensinareis.” Concordou Dom Aleixo, ficou atrás de El-Rei e foi-o ensinando. Tendo surgido um assunto a resolver, Dom Aleixo chamou um jovem fidalgo que também sabia jogar e que estava a assistir do lado de fora, e colocou-o no seu lugar para que ensinasse El-Rei enquanto ele estivesse ausente. Dom Aleixo foi e voltou. O jovem que ele deixara a instruir El-Rei quis retirar-se do posto, mas Dom Aleixo disse-lhe que continuasse. O jovem ensinava e Dom Aleixo observava. Pelo decorrer do jogo, Dom Aleixo notou que El-Rei, seguindo os conselhos do mestre que lhe dera, não apostava nem entrava na jogada a não ser quando tinha um jogo muito seguro. Disse então para o jovem fidalgo: “Afastai-vos para lá, pois deixei-vos aí atrás de El-Rei para o ensinar a jogar, mas não para o ensinar a ganhar.”

Seria verdade, ou uma mera lenda do seu tempo? Provavelmente nunca o iremos saber…

Como é que os heróis homéricos sabiam as ascendências uns dos outros?

Há vários anos atrás foi-nos posta uma pergunta que poderá fazer sorrir – como é que os heróis homéricos sabiam as ascendências uns dos outros? Claro que na Ilíada existem os mais diversos momentos em que as paternidades e eventos de um e outro herói são mencionadas, mas como podiam eles saber isso uns dos outros? Será que, como uma amiga costumava dizer, “paravam para conversar”?

Não temos, naturalmente, uma resposta totalmente fidedigna para dar, até por ser uma questão derivada de uma obra de ficção e uma convenção de poemas épicos, mas numa obra chinesa, 西遊補 (o Suplemento da Viagem ao Oeste, também conhecido por outros nomes), aparece uma sequência que neste contexto merece ser trazida à luz. Dois combatentes estão em pleno combate, a trocar os mais diversos golpes, quando um deles diz ao outro:

Espera! Se eu não te falar sobre a minha família, quando eu te matar e te tornares um fantasma irás continuar a pensar que eu sou apenas um pequeno general sem nome. Mas permite-me contar-te: eu, o Rei Pramit, sou nem mais nem menos que um descendente directo do Macaco Sun, o Grande Sábio Igual ao Céu, que causou grande confusão no Céu.

Será que monólogos como estes, de pura vangloriação, também tinham lugar, muitas vezes de forma implícita, no imaginário do poeta da Ilíada? É bastante possível que sim, mesmo que se pense que nunca tenham acontecido em confrontos bélicos mais reais.

A estranha morte de Hans Staininger

A história de Hans Staininger

Hans Staininger é daquelas figuras que provavelmente ninguém conhece em terras de Portugal ou do Brasil, mas ele continua ainda hoje a ser famoso na Áustria, terra em que em meados do século XVI foi presidente da câmara de Braunau am Inn. No entanto, esta história não é sobre os seus feitos legislativos – que, confesse-se, foi um ponto que não fomos, de todo, averiguar – mas sobre a forma como este homem depois veio a falecer, a 28 de Setembro de 1567.

A história de Hans Staininger

Como pode ser visto na imagem acima, este senhor tinha uma barba bastante longa, dizendo-se hoje que era a mais longa que fora atestada no seu tempo, chegando a cerca de 140cm – quase metro e meio! Agora, avançando-se para o tema da sua incomum morte, diz-se então que em dada altura a cidade de Braunau am Inn sofreu um incêndio, e quando este Hans Staininger ia a descer uma escada tropeçou na sua própria barba, caiu, e parece ter partido o seu pescoço, morrendo instantaneamente…

Toda esta história talvez ficasse por aí, como tantas outras que a Europa viu esquecer ao longo dos séculos, não fosse o que tomou lugar pouco depois – diz-se que a barba deste senhor foi então cortada e passada de mão em mão ao longo dos séculos, até que a respectiva família a doou ao museu local, onde ainda pode ser vista hoje, num misto de uma cor castanha clara e branca.

 

Terá sido verdade? Ou será pura lenda, esta última parte de toda a história, referente à preservação, quase miraculosa, da barba de Hans Staininger? Não é fácil sabê-lo, mas se tivermos em conta a nossa história nacional da barba de Dom João de Castro, é de facto possível acreditar que tudo isto teve lugar como o diz esta espécie de lenda, pelo menos se o corpo do senhor sobreviveu ao incêndio… mas certezas, essas, só os deuses as têm…